A contingência e a Anti-Fragilidade
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A contingência e a antifragilidade

O futuro. Você já parou para pensar em como será o futuro? Essa é uma pergunta que estamos sempre fazendo, nos mais diversos âmbitos. Será que a recuperação da economia será em V ou U? E a instabilidade política em que estamos vivendo: será que teremos uma volta da guerra fria? Como devemos educar nossos filhos agora, para que eles tenham uma perspectiva positiva em meio a toda essa confusão pela qual estamos passando?  

Situações como essas, nas quais tentamos fazer previsões, são deliciosamente descritas na primeira parte do livro “UnchartedHow to Map the Future”, de Margaret Heffernan. A obra aborda a competição entre três economistas, no começo do século XX, para criar modelos que seriam usados para prever ciclos econômicos. Sobre visões de que certos destinos são quase inescapáveis, que a história teria uma tendência a ser repetir. Ou, quando olhamos para nós mesmos, sobre como a decodificação de nossos genes traria todas as respostas necessárias para planejarmos um futuro brilhante, evitando nossas fraquezas e amplificando nossos pontos fortes.  

Mas, o que a autora mostra é como tudo isso, infelizmente, não passa de ilusão! A partir de exemplos muitos ricos, ela discorre: o futuro é, na verdade, “uma terra inexplorada”, que vai se descortinando sobre nós.   

Como diz Woody Allen: se quiser fazer Deus rir, conte a Ele seus planos”. 


De volta ao real
 

É difícil aceitar essa realidade, principalmente porque o ser humano se desenvolveu tanto nos campos científico e tecnológico, que tudo parece ser determinístico. A questão é que, ainda que desconsideremos a física quântica, que traz uma visão probabilística da realidade, sequências de eventos determinísticos podem levar a resultados imprevisíveis.  

Nesse sentido, tomemos como exemplo a própria pandemia pela qual estamos passando. Vamos imaginar que ela de fato começou em um mercado de animais vivos e que um produto – um pangolim, possivelmente (aliás, até então eu nunca tinha ouvido falar de um pangolim…) – de um determinado comerciante foi a fagulha inicial de disseminação. Vários eventos determinísticos aconteceram em sequência até que esse pangolim estivesse disponível para compra no mercado em questão: alguém saiu para caçar em um determinado horário, avistou o pangolim em um determinando lugar, conseguiu capturar o animal… Bastava que apenas um evento desses tivesse sido diferente, ou que outro evento tivesse ocorrido concomitantemente (ex.: um avião passando e assustando o pangolim) para que toda história pudesse ter tido um curso diferente! 

Claro, não sabemos se a história foi exatamente assim – se era apenas um pangolim ou vários, se essa situação era um pouco mais “inevitável”. Mas o exemplo ilustra o ponto principal deste texto: vivemos em um mundo de contingência, um mundo em que os eventos podem até ser determinísticos, sequenciais, mas em que mudanças mínimas levarão a resultados completamente diferentes. Se nossa história fosse rebobinada e tocada de novo, teríamos cenários irreconhecíveis.   

É importante ressaltar que não vivemos em um acaso total, como se tudo fosse aleatoriamente sorteado e definido a cada momento. Mas vivemos sobre a imprevisibilidade da contingência.  


A falsa sensação de controle

  

Temos, portanto, uma ilusão de determinismo, de entender que o que aconteceu, aconteceu por que tinha que acontecer – e, portanto, que podemos prever o que irá acontecer. E como vimos no começo desse texto, carregamos essa visão em várias áreas – na economia, na história e no nosso próprio destino -e, claro, na forma como enxergamos as empresas. 

O exemplo mais óbvio dessa visão determinística no mundo das empresas é o famigerado planejamento estratégico. Pegamos as melhores cabeças da empresa, as melhores capacidades analíticas, e projetamos o futuro. Normalmente, um futuro que é simplesmente uma projeção do passado, do que já vivemos.   

Ora, se o mundo é pura contingência, nossa capacidade de planejar o futuro acaba sendo fútil, o que fazer então?  Um caminho, sugerido por Nassim Taleb, é tornar-se antifrágil, que significa, no final das contas, usar essa contingência a nosso favor. 


Ser 
antifrágil é usar a contingência a nosso favor 

 
Esse termo, “antifrágil”, foi cunhado por Nassim Taleb para tratar de sistemas que se fortalecem quando submetidos a fatores estressantes. São sistemas que prosperam em ambientes de incerteza, pois dela tiram proveito. A nossa tendência é sempre de criar sistemas frágeis, que dependem de estabilidade, ou, no máximo, robustos, que aguentam fatores estressantes até um certo ponto.  

Voltemos ao exemplo do planejamento estratégico tradicional. Por que ele é, por natureza, frágil? Porque é fixado um plano de longo prazo e, normalmente, ele parte de premissas que não se sustentam na medida em que o futuro se revela. Como o próprio Taleb diz: “Se tornam estradas que não possuem saídas, devendo ser percorridas até o final, a qualquer preço.”  

 

O que fazer para criar opções nessa jornada?  
  

Se não podemos planejar o futuro com precisão, devemos fazer apostas menores. Apostas de baixo custo, mas com bom potencial de ganho. Uma vez que são de baixo custo, poderemos fazer múltiplas apostas, aumentando as chances de sucesso. Além disso, cada aposta nos dará também o benefício da via negativa – o aprendizado do que não deve ser feito. Essas apostas devem ser submetidas ao teste da realidade, que é muito mais importante do que a opinião de qualquer especialista.   

Ao invés de construir uma narrativa perfeita sobre o futuro, apoiada em teorias sofisticadas e traduzida em um plano que nos dá conforto e sensação de controle, devemos trabalhar com o conceito de opcionalidade. Se temos uma opção em aberto, podemos ou não exercê-la, e nos expomos à possibilidade de exercê-la em momentos nos quais os  ganhos poderão ser formidáveis.  

Portanto, ao invés de prever o futuro, devemos explorá-lo? Mas de uma forma que gere aprendizado e que aumente as chances de se tirar proveito da incerteza. É isso que a anti-fragilidade procura oferecer, e as empresas com certeza deveriam focar parte significativa dos seus esforços no desenvolvimento dessa capacidade. 

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