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Sobre conceitos, trauma e segurança psicológica

Os conceitos – temos que usá-los bem, de forma precisa, sob pena de incorrermos em grandes riscos e consequências inesperadas! Para exemplificar isso, vamos falar sobre dois conceitos: segurança psicológica e trauma.

O que é Segurança Psicológica?

A segurança psicológica se tornou um tema vital quando falamos de engajamento de pessoas e de grandes times. A história é conhecida: quando o Google tentou descobrir o que de fato diferenciava os grandes times – no famoso projeto Aristóteles, em 2015 – houve, de certa forma, uma surpresa. O fator mais importante não era propriamente quais eram os membros dos times – a composição exata, a inteligência de cada um, a alocação de pessoas de desempenho excepcional. O fator mais importante era um atributo do próprio time: se as pessoas, naquele time, naquele contexto, sentiam-se confiantes para se posicionarem, para externarem seus pontos de vista.

Amy Edmonson, uma pesquisadora, de forma independente, em um estudo separado, chegou à mesma conclusão. Ela cunhou então o temo “segurança psicológica”, definido como “Segurança Psicológica é a crença de que alguém não será punido ou humilhado por se posicionar com ideias, questões, preocupações ou erros”. Interessante que Amy fez estudos em hospitais e descobriu que os times de melhor desempenho eram aqueles que reportavam mais erros – de forma análoga ao que o Google descobriu. Isso parece contra intuitivo, mas, na verdade, esses times reportavam mais erros justamente porque havia, entre seus membros, espaço para isso. E ao fazerem isso, eles tinham como aprender e evoluir, tanto individualmente e como um time.

Esse conceito – segurança psicológica – começou a ser usado intensamente no ambiente corporativo, como uma condição básica e necessária para o desenvolvimento das pessoas e times. E com justiça: é de fato vital criar contextos onde o aprendizado ocorra livre e naturalmente, principalmente em um ambiente de negócios cada vez mais desafiador. Mas será que corremos o risco, talvez, de vulgarizar o uso desse termo? Vejamos.

O Trauma

Para falar isso, vamos falar de outro conceito – “trauma”. Logo no início do livro “Mimando a Mente Americana” (livre tradução minha), os autores, Greg Lukianoff e Jonathan Haidt, mostram como o termo “trauma” teve seu significado, de certa forma, distorcido ao longo do tempo, e como isso pode causar resultados inesperados.

Nas primeiras versões do Manual de Diagnósticos de Transtornos Mentais, psiquiatras usavam o termo “trauma” apenas para descrever um agente causando dano físico, como, por exemplo, no que chamamos de traumatismo craniano. Numa revisão em 1980, entretanto, reconheceu o primeiro transtorno causado por um trauma de natureza não física: o transtorno do estresse pós-traumático. Ainda que de natureza diferente, a definição do evento traumático que poderia causar um transtorno era estrita: o evento deveria “causar sintomas significativos de angústia em quase todas as pessoas” e “deveria estar fora da faixa usual de experiências humanas”.

Havia uma ênfase em que o evento não fosse baseado em um padrão subjetivo, deveria ser algo que faria com que a maioria das pessoas tivesse uma reação severa.  Havia uma diferença entre experiências  dolorosas, como divórcio, e experiência extremas, como uma guerra. No começo dos anos 2000, ainda segundo os autores, o conceito de trauma foi mais ampliado – ou distorcido – ainda, incluindo qualquer coisa “vivida por um indivíduo como fisicamente ou emocionalmente danosa… com efeitos duradouros no seu funcionamento mental, social…”.

Portanto, ao longo do tempo o conceito de trauma deixou de ser algo físico e objetivo, para algo psicológico e subjetivo. Mas a palavra “trauma” continua carregando o mesmo peso de sua definição inicial, mesmo que o conceito, em si, possa ter perdido força, ou sua intenção original, já que agora ele foi ampliado para compreender uma gama muito maior de fenômenos. Mas, isso traz um efeito bastante adverso, no âmbito da criação de nossos filchos e mesmo de jovens adultos: queremos, a todo custo – e com legitimidade – livrar nossos filhos de traumas! Quais pais não teriam essa intenção? Mas o problema é que trauma, agora, é algo muito amplo, e talvez possa compreender situações, eventos que, mesmo que duros, fazem parte da vida. E, mais do que isso, que podem ser vitais para formação de cada indivíduo.

Contexto importa

Como dizem os autores – Lukianoff e Haidt – somos seres anti-frágeis, na  definição de Nassim Taleb: precisamos de fatores estressantes para nos aprimorarmos. Mas se somos protegidos desses fatores estressantes a todo custo, com medo dos traumas que eles nos causarão, como iremos nos formar? Será que realmente devemos permanecer em contextos seguros, livres de toda forma de traumas?

Contextos seguros! Mas não é justamente isso que defendi no início desse texto – não falei justamente sobre a necessidade da segurança psicológica como habilitadora do crescimento de times e indivíduos no ambiente corporativo? E agora estou falando justamente sobre o risco de atuarmos em contextos… seguros?

A questão principal aqui é justamente a distorção do conceito. O que é um contexto seguro, do ponto de vista de segurança psicológica?  Ainda que o conceito não signifique isso, é comum entender que em um contexto de segurança psicológica as pessoas estão, de certa forma, “protegidas”, para que possam se expressar. É muito fácil confundir franqueza com desrespeito, trocar uma alta exigência, positiva, por um clima de indulgência. A pessoas devem sim, poder se posicionar, mas devem estar preparadas para ouvir, para serem cobradas, para se sentirem mal, pois é isso que as fará crescer. Não é muito diferente dos filhos, que deverão enfrentar traumas, que, na verdade, não são traumas.

Portanto, quando falarmos do conceito de segurança psicológica – de qualquer conceito, na verdade – devemos ser cautelosos: qual é seu verdadeiro significado e quais são as implicações de seu uso de forma distorcida? Nos exemplos desse texto, curiosamente, as implicações são dramáticas: pais criando filhos despreparados para encarar o mundo; empresas criando colaboradores e times incapazes de se aprimorar.

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